editorialprograma
a universidade, força-motriz de um projeto
humanista para a civilização. núcleo
formador dos grandes pensadores da
modernidade. criadora e libertária, espaço
para a construção de um conhecimento
universal e emancipador.
e o que restou desse antigo projeto? a
universidade vive hoje uma profunda
crise. mas com olhos livres é possível
ver outro rumo, o rumo futuro. ou então
permaneceremos imóveis, na esteira do
presente barbarizado e sem poesia. duas
universidades:
1. universidade: shopping para a
barbárie.
a universidade-shopping não tem
qualquer projeto. os maiores desígnios
da humanidade deram lugar ao ceticismo
mais arrogante.
o “conhecimento” que se reproduz
aqui parece não passar de mercadoria
vendida em fragmentos sem significação.
ossificado, neutralizado pela rotina e pelo
academicismo. cada vez mais específico e
limitado. “conhecimento” para o mercado.
esse “conhecimento” pressupõe a inércia
e a apatia dos seus receptáculos. vem
até nós em monólogos tediosos. imune à
vida, separado da intervenção política e
das necessidades de nossa época. surge
e morre nas salas de aula, sem produzir
nada novo.
o cotidiano maçante da universidadeshopping
nos separa da crítica à barbárie
social que se aprofunda. desemprego,
fome. guerra. favelização do planeta. as
cidades viram e se reviram em convulsões
repletas de violência. enquanto entramos
e saímos das salas de aula.
nessa universidade das diretrizes
empresariais, os cursos que não
interessam diretamente ao mercado caem
no abandono. sem quórum. o projeto “puc
inovação” aponta o caminho: interessa é
vender as pesquisas, com o lucro mais
imediato possível!
a educação é um grande negócio:
patrocínios e parcerias público-privadas,
mensalidades exorbitantes, ensino a
distância. redesenho institucional para
submeter a universidade ao pragmatismo
financeiro da fundação são paulo. dívida
milionária com os bancos. demissão em
massa de professores e maximização dos
contratos.
após os estudantes ocuparem a reitoria
contra a destruição mercadológica da
puc; uma ocupação que acabou quando
a reitoria chamou a polícia militar, a casta
burocrática – minoria – que hoje governa
a universidade continua perseguindo e
punindo.
câmeras e segurança particular,
proibições moralistas que acabam com
as nossas mínimas liberdades – festas,
panfletagens, cartazes: tudo proibido!
–, ausência de espaços democráticos
de discussão e decisão política. no
lugar, tudo decidido aos conchavos, nos
organismos de poder verticais e antidemocráticos.
são os instrumentos necessários para
calar os estudantes – maioria – e manter
de pé o castelo de cartas, frágil e
contraditório da universidade-shopping.
até que ele desabe!
2. universidade: ágora para a sociedade
futura.
terra das vocações acadêmicas. empresa
para a valorização do capital. ambiente
hermético onde se privilegia o silêncio,
quase tudo é proibido. será o único
paradigma possível?
diremos que não: é preciso transformar!
e a possibilidade existe na medida
da necessidade. da força-viva da
universidade – juventude, suprema crítica
do mundo estabelecido – pode nascer
o embrião de um outro caminho, outro
paradigma de sociedade.
a puc foi esse embrião nos tempos
sombrios da ditadura militar. abrigou
perseguidos políticos e lutou contra
o regime, em defesa das liberdades
democráticas. palco de grandes festas,
debates e manifestações, espaço de
efervescência política e cultural, foi
peça de um projeto coletivo maior que
apontava para toda a sociedade um
caminho alternativo à barbárie que, hoje
mais do que nunca, só avança e avança.
podemos fazer da puc uma ágora de olhar
cravado na sociedade futura – sociedade
dos desígnios humanos, com liberdade,
festa e existência digna para todos.
puc-ágora: portadora e impulsionadora
do pensamento crítico, contestador e
atuante; comporta e dá determinação ao
espírito transformador da juventude; ao
invés de suprimi-lo.
fundar uma universidade paralela,
puc-ágora para além da universidadeshopping.
que emerge da força e da
coragem incendiária dos que têm fome
pela transformação. propomos:
reuniões abertas do cafil: ao menos
quinzenais. amplamente divulgadas, para
discutir e decidir tudo conjuntamente.
um jornal dos estudantes: romper o
silêncio, da filosofia para todos os
cidadãos da puc-ágora. com o número
um do poiesis, demos o primeiro passo
na direção de um jornal construído com
a participação ativa dos estudantes. o
jornal deve ser discutido, organizado e
produzido a partir das reuniões abertas do
centro acadêmico.
atividades político-culturais: o centro
acadêmico como pólo interventor,
impulsionador da vida política e cultural,
da poesia-filosofia na puc-ágora. festas.
grupos de estudo independentes; para
romper com a passividade induzida da
rotina na universidade-shopping.